Rolo: uma análise
May 16, 2008(estudo psicodramático sobre a influência e atemporalidade
do personagem adolescente dos quadrinhos)
Maurício de Souza ajudou a criar uma geração de pré-adultos e adultos com seus personagens e histórias em quadrinhos. A influência de tais personagens se dá desde a construção de bons faladores da língua portuguesa até a projeção de arquétipos que auxiliam na construção de caráter. É fácil identificar que personagens como Mônica, Cebolinha e Cascão não são apenas desenhos, mas um espelho para o que uma criança saudável precisa: liberdade para brincar e criar. Obviamente, a ingenuidade não pode fazer parte desse cenário, uma vez que, ainda que sejam crianças, esse núcleo das histórias deve estar preparado para responder qualquer tipo de pergunta que as crianças do mundo real fazem a si próprias. Mesmo tendo a mesma idade de alguns leitores, eles não podem deixá-los a ver navios.
Um ingrediente que faz toda essa magia permanecer viva é a atemporalidade. Não só nas histórias da Turma da Mônica, mas em várias outras histórias, ou séries. Os Simpsons já estão na temporada tralalá e mesmo assim Maggie continua bebê, Bart ainda tem 9 anos e tudo está do mesmo jeito, como no primeiro episódio (a não ser pelo traço e, aqui no Brasil, pela dublagem). Mas existe um personagem de Maurício que está deslocado dessa idéia de tempo, e não é o Piteco.
Rolo, o jovem de cabelos e barbas azuis soldadas na costeleta, é a representação do que é ser descolado, despreocupado com os problemas que qualquer outro jovem da sua idade tenha e ostentar aquele ar de quem está solto no mundo. É amigo de Tina, Zeca e Pipa. Todos esses personagens, por pertencerem ao mesmo núcleo, parecem ter a mesma idade. Só que Rolo parece ser muito mais velho do que sugere Maurício de Souza.

Nas histórias mais antigas (década de 80 e 90), Rolo não estuda, não trabalha, tenta arrumar namoradas e seus pais não aparecem nas histórias. Além disso, já foi hippie, ou seja, a julgar pelos anos 80, tudo indica que ele é um homem entre os 25 e os 30 anos e que vive às custas de quem quer que seja. Sendo assim, para os parâmetros sociais atuais, Rolo não é um exemplo a ser seguido, pois como faz o estilo “bicho-grilo”, vai de encontro com a proposta das histórias de Maurício de Souza em moldar personalidades socialmente estáveis. No núcleo infantil, Franjinha é um ótimo contraponto a Rolo, pois é um pequeno gênio e utiliza sua astúcia para coisas boas ou para ajudar o Cebolinha a ser o dono da rua.
Na virada para o século XXI, muitos personagens sofreram modificações, outros vários foram criados e a maneira de fazer histórias teve que se adaptar às crianças de hoje, totalmente ligadas ao mundo digital e muito menos inocentes do que eu ou você fomos no passado. Rolo rejuvenesceu. Seu cabelo não é mais soldado à barba, ficou um pouco mais baixo e continua falando algumas gírias dos anos 80. O estopim para a desconfiança sobre sua natureza está em uma das histórias lançadas neste ano: Rolo está preocupado com o vestibular.
Se Rolo é um ex-hippie e agora está preocupado com vestibular, que tipo de culpa Maurício de Souza tentar retratar? O adolescente que quis curtir a vida ao máximo e que, quando “a corda apertou”, sentiu que era o momento de escolher uma carreira? E outra: se Rolo parece não ter pais, ele prestou vestibular para uma faculdade pública?
Há uma edição especial que conta a história da Tina como sendo uma jornalista intrépida tentando descobrir um segredo à la Indiana Jones. Se ela já é jornalista, certinha do jeito que sempre foi, deve ter entrado na faculdade aos 17 anos, tendo se formado aos 21, 22 anos. Zeca e Pipa parecem ter a mesma idade, apesar de não sabermos exatamente o que eles fazem da vida. E Rolo, mesmo com aquela barba e com o passado que ostenta, não pode ser tão mais velho que Tina.
Se Rolo ainda não chegou aos 19 anos, ele deveria estar mais próximo do núcleo onde está o Zé Luís, o garoto de óculos e cabelo de morcego que aparece de vez em quando, sempre em companhia de Titi e Jeremias. Zé Luis deve ter pelo menos quinze anos, e no entanto ele não se preocupa com faculdade como Rolo revelou estar.
Por ser “solto” na vida, Rolo dá margem a ser usuário de drogas. Ele é um adolescente sem limites, que não tem responsabilidades e muito tempo livre. E, apesar das histórias jamais mencionarem sexo, Rolo não pode ser do tipo promíscuo, pois não faz o tipo “pegador”. Ele é mais sonhador do que um caçador.
A vida de Rolo é realmente uma incógnita. Não sabemos de onde ele vem, quantos anos ele tem e como vive. Tudo o que sabemos é que o seu traço e seu estilo de vida foi alterado de uns tempos para cá, talvez para remediar essa postura meio “relaxada” que ele tinha antigamente. Pode-se sugerir, a partir dos fatos, que Rolo é o garoto-problema filho de pais ricos e que é expulso de casa, tendo que viver em um apartamento comprado só para ele. Os pais desistiram de mantê-lo em casa e disseram-lhe um sonoro “vá viver a sua vida e deixe-nos em paz”. Nunca se sabe.
Acredito que nem o Louco seja tão enigmático quanto Rolo. Há uma frase que diz que “o diabo é deus quando está bêbado”. Seguindo a mesma toada, posso dizer que Rolo é o Louco quando volta à razão, seja lá qual for o parâmetro de razão que Maurício de Souza o instaurou.

Posted by Luiz Guilherme Amaral



Uma das grandes sortes da minha vida foi ter estudado no IP&T (Instituto de Percussão e Tecnologia), um dos braços da Escola de Música e Tecnologia em São Paulo. Lá eu conheci grandes caras como Mozart Mello, Eduardo Ardanuy, Celso Pixinga, Giba Favery, mas tive como professor um dos melhores bateristas do Brasil (na minha concepção): o Chris Rocha.


